sexta-feira, 18 de abril de 2008

Paisages de Planícia: Schiermonnikoog

Estou passando umha temporada longe de Arbolícia, num planeta bem mais estranho que chamamos Planícia. Aqui todo é umha inmensa chaira, tanto na costa como no interior. E porém, os planíferos nom som tam diferentes dos arvorícolas. Vou-vos amosar algumhas cousas que me atopo por aqui. Começamos com Schiermonnikoog.
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Este bonito nome corresponde a umha das ilhas frísias occidentais. Situadas entre o mar do norte e o Waddenze, presentam a particularidade da pouca profundidade das suas augas -o que fai que os barcos tenham que virar entre bancos de area para chegar a elas. Isto produz umhas praias inmensas, kilométricas, paraíso das aves e outros bechos.



O Waddenze, de caminho à ilha.



A praia, em perspectiva


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Toda a ilha é um parque natural, e está prohibido acceder em vehículos de motor. Mais está habitada: milheiros de passaros e humanos convivem bastante bem. Os planíferos de Schiermonnikoog ocupam-se principalmente na agricultura e no turismo.
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Estranhas formas... de vida? inertes?



A praia...


... dixem já que era grande?


Tamém pescam, claro está.



As dunas som a paisage típica...



... e nom falta a auga


Som ninhos ou parásitos?


Se eu fora paxaro, tamém pararia por aqui na minha migraçom.



quinta-feira, 10 de abril de 2008

Nº 1 em Arbolícia: Billy Bragg

Fazia moito tempo que nom me passava isto: escoitar um disco por primeira vez e, ao acabar, repassar a lista de canções e lembrar-me de quase todas como “temazos”. É algo moi, moi inusual, desgraçadamente –sobre todo para mim, que estaria disposto a pagar moito por essa sensaçom.

E o curioso é que isto nom me aconteceu com o último de R.E.M., nem com outros que escoitei ultimamente de gente como Björk, Eric Dolphy, Jeff Buckley, the Byrds, Kinks, Moby Grape, Zombies, “My life in the bush of ghosts” de Eno & Byrne, Peter Tosh, Massive Attack, Fela Kuti, The Mars Volta, Scout Niblett… todos eles bós discos, sem dúvida, e alguns deles mesmo moi grandes. Mas nom me causárom esse efecto (o "Angel Dust" de Faith No More e o de Vampire Weekend estivérom cerca), e esse efecto, meus amigos, só se pode causar a primeira vez.


Estou falando dum disco que o tem todo: canções, interpretaçom, estilo, encanto. Esse disco, que veu a mim de casualidade, como sem querer, é o “Don’t try this at home” de Billy Bragg. Originalmente publicado em 1991, foi reeditado fai um par de anos com um 2º CD de extras. É precisamente essa ediçom a que merquei numha das excelentes tendas de música de Planícia (si, aínda nom dixem nada, pero estou passando umha temporada exilado: deica logo Arbolícia, ola Planícia), por só 8.90 €. Escolhim-no basicamente porque tinha “Sexuality”, a única cançom de Billy Bragg que conhecia. Eu preferia mercar o “Brewing up with Billy Bragg” que seica está considerado um dos seus melhores discos, mas nom o tinham. E tenho que agradecer à fortuna que fosse assi, já que assi pudem conhecer este.
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Suponho que vos soará o nome de Billy Bragg, mas suponho tamém que nom estaredes demasiado familiarizados com el. Trata-se do clássico inglês com consciência de classe (graças a Marx, em Inglaterra a classe obreira aínda conserva a noçom de que nom todos somos iguais; o de ter cámara dos lords seguramente ajuda), com pinta de boa gente e predilecçom por Woody Guthrie. Nos oitenta argalhou o da Red Wedge, a plataforma de músicos contra Thatcher, que tivo o éxito que acostumam ter estas iniciativas: zero.

Ao igual que os grandes mestres, o Billy toca temas políticos e persoais com igual capazidade de conmover. Como bom filho da Grande Bretanha, os seus temas favoritos som o futebol, o sexo, as histórias cotiás, a política. A miúdo todo junto.


E musicalmente?

Pois aqui começamos com o que realmente importa. E é que estamos falando dumha época e dumha mentalidade na que, se nom tinhas umha boa cançom, nom a metias num disco. E por isso neste disco hai pop de estribilhos perfectos, guitarras, baladas folkis… diferentes estilos, pero sempre grandes temas. E todos eles unificados pola moi reconhecível voz de Billy Bragg, assi como polo seu moi característico sotaque.

Nom vou repasar todo o disco cançom a cançom, seria longo de mais. Assi que simplemente vou dizer que o principal deste disco é: 1) Está ateigado de boas canções (creo que isto já o deixei claro), 2) Está bem gravado e interpretado, e 3) Aparte dos vímbios, tem algo mais: esse chisco de mágia que distingue as grandes obras, e que se che queda pegado durante um tempo.

E ademais disso, vou salientar 3 canções:
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Em primeiro lugar, como nom, “Sexuality”. Umha das mais perfectas canções do pop de todos os tempos, dessas onde um desejaria viver toda a vida se puidera parar o tempo. Hilarante e genial. Ah, com Johnny Marr à guitarra e com (cabaleiros, ergam os seus puchos) a adorável Kirsty McColl (R.I.P.) aos coros. Desfrutade-a neste video, e atentos à sua "pronunsiaishion". E... joder... como se pode fazer um verso tam chulo cumha frase como "tinha um tio que jogou para o Estrela Vermelha de Belgrado"?
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Cambiamos de estilo. “Everywhere” poderia passar por um tema de Eric Bogle, já que tem um aire a “Waltzing Matilda” ou “My Youngest Son Came Home Today”, himnos antibélicos desse atípico cantautor escocés/australiano. E, mália que nom o é, consegue causar o mesmo efecto, o que é moito dizer. Mas em realidade está escrita por um tal Greg Trooper e por Sid Griffin (si, o dos Long Ryders). A história dos dous amigos, um gringo e um japonés, é conmovedora.
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Finalmente, “North Sea Bubble”, outro tema com feituras de himno, que se che pega instantanemente e fai-che repetir mentalmente todo o tempo “we’re living in a north sea bubble"... ou nom tenho razom?
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E nom podia rematar sem antes comentar o segundo CD com os extras, basicamente de maquetas. Hai de todo, incluída umha acelerada versom do "Revolution" dos Beatles, pero hai que destacar umha marabilha que vale por si soa um disco: “Bread and Circuses”, composta e interpretada a médias com Natalie Merchant (10.000 Maniacs). Alta Emoçom Acústica.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Um pouco de arte urbana no arrabaldo do sul

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Primeira aproximaçom: impactante


Virando à direita, todo está conectado...


Notar as figuras pintadas enriba do muro...



Detalhes de qualidade e surrealismo



tremenda escavadora



E o bom de Gandhi, atrapado

segunda-feira, 24 de março de 2008

Ortegal

Para a terra, um final, ou isso dim alguns; para o mar, apenas um lugar de passo mais.


Olhamos para o ceu...


... e o ceu abre-se


assi.


quarta-feira, 12 de março de 2008

O povo asolagado do Alto Minho

A seca deixa ao descuberto restos de antigas civilizações. O Minho, vido a menos, amosa-nos os lares onde moravam os nossos devanceiros, os atlantes, antes de que o seu mundo ficasse sepultado polas augas, a luz e o progresso.



O primeiro que atopamos é umha velha fábrica de luz...



Ringleiras de pedras a modo de Stonhenge sinalavam o caminho...


... que aginha acabou, pois a auga cubrira a única ponte que nos permitiria passar.

Em efecto: nom havia forma de cruzar.

Nom sabemos qual era o nome desta aldea, alguns buscam etimologias polo ferro, outros em nomes de divindades adorados polos antigos...


... cujos espíritos, transmutados em árvores, chamavam por nós e tentavam-nos a cruzar. Mas soubemos evitar a trampa...


... já que, de qualquer jeito, havia tamém ruínas do nosso lado.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A Enciclopédia da Música Clássica, vol. 4: NRA & Paisley

Já está disponível o 4º volume da Enciclopédia da Música Clássica! Despois do nº 1, sobre as origes da música culta contemporánea (Sex Pistols e demais...), do nº 2, sobre a New Wave, e do nº -1, sobre o rock psicodélico de finais do '60... já podedes disfrutar com o melhor resumo possível do período que vai desde 1982 a 1988. Isso si, unica e exclusivamente ides atopar o que se deu em chamar Novo Rock Americano (NRA) e os grupos neopsicodélicos da escena Paisley Underground. Que nom vos ubicades demasiado? No problemo, para isso estamos em Arbolícia. Marchando umha lecçom resumida de musicologia oitenteira (recomenda-se baixar primeiro o arquivo, descomprimi-lo, e escoitar mentres vos culturizades):


REM: Que se vai dizer deles que nom estea dito já. Os de Athens estavam no ano 1984 em plena forma e faziam jóias como este “Harborcoat” (do LP Reckoning), que nom precisou ser single para virar clássico.


Guadalcanal Diary: Uns dos que nom tivérom éxito e ficárom como banda de culto. Aínda que na cançom aquí incluída (do disco Walking in the shadow of the big man) parezam copiar a REM, o certo é que a sua música era variada e sorprendente como poucas. A descubrir, absolutamente.



Winter Hours: e se de Guadalcanal Diary aínda haverá quem se lembre, de Winter Hours já é mais difícil. Eram uns segundons, pero tamém capazes de fazer algumha que outra marabilha como este “Wait till the morning”, tirada do disco homónimo (1986) que compilava vários EP’s.


Feelies: Grupo peculiar, começaram no ano 1980 com um disco de corte post-punk minimalista, estilo Velvet Underground. Tardárom 6 anos em sacar a continuaçom, The Good Earth, produzido por Peter Buck e com um aire diferente, de onde extraemos este “The high road”.


Green On Red: Os de Chris Cacavas ficam como um dos grupos mais carácterísticos do Novo Rock Americano (NRA) de mediados dos ’80. Gravity talks foi o seu primeiro LP, publicado em 1983 despois de sacar um par de EP’s.



Flying Color: Outros dos que caerom no esquecemento generalizado, mália ser umha máquina de facturar pequenos himnos de pop guitarreiro, especiais para dias de chúvia. Quem o duvide faria bem em escoitar o seu disco homónimo, que incluía entre outros o pequeno hit “Dear Friend”.



True West: A banda dum mítico do rock americano como Russ Tolman sacou dous mini-LP’s no 1984 e nos dous incluía o seu tema mais característico, “And then the rain”, se bem era moito melhor versiom a do disco Hollywood Holiday, que por suposto é a incluída nesta compilaçom.




The Silos: O bom de Walter Salas-Humara segue a sacar discos a dia de hoje. Quando debutou, no ano 1986, com o LP About her steps, fazia um rock moi do estilo da época. Logo evoluiu, e paga a pena escoitar tamém o seu trabalho posterior, que tem sempre o seu toque persoal.



Thin White Rope: A tia que os contratou admitiu que, para que a discográfica aceptara ficha-los, os colou como pertencentes à daquela puxante escena Paisley Undergroud, com a que tinham pouco que ver: o seu nom era a psicodélia lánguida senom o rock desértico, como o que se pode desfrutar no seu LP Exploring the axis de 1985.



Long Ryders: Grupo paradigmático do lado mais próximo às raízes, mesmo ponhiam sombreiros vaqueiros sem vergonha! Venerados polo Ruta 66, a sua obra mestra é o dico Native Sons de 1984, pero a cançom incluída aqui provém do mini-LP 10-5-60, publicado o ano anterior.




The Replacements: De Minneapolis, a banda de Paul Westerberg (um dos grupos favoritos de Tom Waits nos ‘80) nom era facilmente reducíveis a umha etiqueta. No seu LP Let it be (1984) colaborava, como nom, Peter “estou-em-todas-partes” Buck.


Violent Femmes: E se os anteriores eram inclassificáveis, que dizer deste trio punk/folk de Milwaukee. Capitaneados por Gordon Gano, o seu debut Violent Femmes (1983) é umha autêntica marabilha com tralhazos acústicos como este “Blister in the sun”.




The Steppes: É de sobras conhecida a minha debilidade por estes americano-irlandeses que, liderados polos irmãos Fallon, acadárom as mais altas cotas do folk-rock psiquedélico... sem que ninguém se enterara. “Tourists from timenotyet”, do LP Stewdio (1988), foi a sua melhor aproximaçom a um single de pop perfecto.



Dream Syndicate: A banda primigênia do –a estas alturas- patriarca do rock americano Steve Wynn publicou em 1982 The days of Wine and Roses, o disco que deu o pistoletazo de saída a toda a escena Paisley Underground, radicada em Los Ángeles.




The Rain Parade: O seu Emergency Third Rail Power Trip (1983) está considerado por moitos (entre os que me incluo) umha das obras mais perfectas do pop/rock dos anos ’80. Lisérgica até dizer basta, inclúe melodias que fariam palidecer de enveja a The Byrds. “What she’s done to your mind” é o melhor exemplo do que sabia fazer David Roback antes de Opal e Mazzy Star.



The Three O’Clock: Vezinhos dos grupos anteriores, os seus primeiros discos –como o Baroque Hoedown de 1982, de onde sacamos este “I go wild”- conjugavam psicodélia e energia guitarreira. Posteriormente fôrom caendo no pasteleo-com-teclados tam próprio da época. Por certo que ao começo se chamavam Salvation Army, até que a organizaçom do mesmo nome os fijo mudar.



The Bangles: Si, som elas, as mesmas dos mega-éxitos “Walk like an Egyptian” ou “Manic Monday”. Antes de passar-se ao rolho Prince faziam parte da escena Paisley, e versioneárom o “Going down to Liverpool” que publicaram o ano anterior Katrina & the Waves (si, os de “Walking on sunshine”, mas tamém a banda do ex-Soft Boy Kimberley Rew). Incluído em All over the place (1984).



Game Theory: A banda de Scott Miller eram dos mais popeiros do Paisley Underground. Chegárom a completar obras mestras como Big Shot Chronicles (1986) ou o Lolita Nation (1987), onde se pode atopar esta marabilha titulada “Chardonnay”.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Instrucções para habitar o mundo

Em Arbolícia está moi estendida a admiraçom por Miguel Brieva, um ser pensante que tem como hobby fazer pensar a outros seres mediante a noble arte da ilustraçom. El corresponde a esta admiraçom regalando-nos reflexões como a seguinte (pinchar na image para ver ampliada).


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A natureza da mente consciente

Este artigo de Ignacio Morgado Bernal (catedrático de Psicobiologia da UAB), que foi publicado no jornal espanhol El País o passado 9 de fevereiro, reflicte moi bem algumhas das teimas que me rondam ultimamente pola cabeça. De jeito para mim sorprendente, o autor nom parece conceder um grande valor ao hipotético achádego da “fórmula” que explique o fenómeno da consciência. Por umha banda, devido a que provavelmente a nossa mente nom estea preparada para entender essa explicaçom, polo menos no seu estado evolutivo actual. Mas tamém vem dizer que, mesmo se o entendéssemos, e déssemos com os “algoritmos” (ou o que fosse) que a produzem, isto teria pouca importância. Nom coincido em absoluto com esta interpretaçom: desde o punto de vista dum engenheiro de sistemas, a possibilidade de estudar a consciência deste jeito seria algo absolutamente revolucionário. Sem ir mais longe, porque possibelmente seria reproduzível. A dia de hoje sabemos como criar redes neuronais artificiais que emulam o comportamento do cerebro. Se, ademais, fossemos capazes de criar consciência (ou replicá-la, ou armazená-la) a conseqüência seria o maior câmbio de paradigma da história do pensamento. Pensemos por exemplo na possibilidade de “migrar” a consciência dum sistema natural –o nosso cerebro- a outro artificial criado por nós. Nesse caso o nosso Eu deixaria de estar confinado no nosso corpo, finito e com data de caducidade, e existiria quando menos a possibilidade teórica da inmortalidade ou da ubicuidade. Ciência ficçom, a dia de hoje. Mas num futuro, quem sabe... é este o destino natural da humanidade? É jogar a ser deus? Estamos predestinados para isso? Ou som simples palhas mentais? A minha resposta a todas estas preguntas é SI, mália serem aparentemente excluíntes entre si. Mas quizais deveriamos resucitar a Philip K. Dick e preguntar-lho...
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NOTA: no artigo, os comentários em cursiva som meus.
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O cerebro dota-nos aos humanos de poderosas sensações e percepções. Se abrimos os olhos um dia soleado sentimos que toda a paisage que contemplamos está chea de luz. O olor do almorço matinal parece-nos que está aí fóra, saíndo da cunca de café quente. Mas o certo é que essa luz e esse olor só existem na nossa mente, pois som o modo em que o cerebro fai que percibamos as diferentes formas de energia que circundam o nosso entorno. Fóra de nós nom hai luz, só energia electromagnética; nem olor, só partículas volátiles. É dizer, o cerebro crea a mente e fai-nos percibir o que acontece fóra e dentro do nosso corpo dum modo especial que nom tem por que coincidir com a realidade mesma. Esse modo especial nom é outra cousa que a consciência e os seus contidos, um fenómeno que ademais de dar sentido à nossa vida aporta flexibilidade ao comportamento e converte-nos em seres verdadeiramente inteligentes.

Se cavilamos sobre elo nestas páginas é porque moitos científicos acreditam que a natureza da consciência é o principal problema que a moderna biologia tem aínda que resolver [eu tamém]. Trata-se na realidade dum problema moi especial que nem sequera sabemos moi bem como considerar e investigar. Abundam, nom obstante, as reflexiões sobre o mesmo e os trabalhos de investigaçom que tentam aborda-lo desde algumha perspectiva particular. Recentemente, no Instituto Tecnológico de California (Pasadena, USA), eu mesmo participei em experimentos para conhecer mediante resonância magnética funcional as partes do cerebro activadas a depender de se os sujeitos percibiram ou nom conscientemente estímulos luminosos apresentados brevemente nalgum dos seus olhos.

O que acontece é que o problema da consciência nom se esgota nem moito menos no conhecemento dos circuítos e a actividade cerebrais que a fam possível. O que quizais mais nos intriga é conhecer como essa actividade cerebral gera o estado consciente, é dizer, como tem lugar a emergência ou câmbio qualitativo que convirte a actividade do cerebro em percepções conscientes tam específicas e genuínas como a doçura do doce, o azul do azul, a dor do doroso, é dizer, como som possíveis as diversas experiências conscientes que invadem a nossa mente, sejam em forma de sensações, motivações, sentimentos, lembranças e ilusões, ou seja, o que os filósofos chamam qualia.
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Mas, ao preguntarmo-nos sobre como a actividade cerebral gera a experiência consciente, que tipo de resposta estamos a buscar? Tente o leitor pensar e respostar: como entender o câmbio qualitativo do fenómeno fisiológico ao fenómeno mental? Que podemos agardar para explicar o fenómeno psíquico da consciência? Acaso algoritmos informáticos ou fisiológicos?
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Conformariamo-nos com umha fórmula matemática, novas partículas físicas ou umha forma de energia até agora desconhecida? [desde logo, eu conformaria-me com qualquera dessas possibilidades] Em realidade, sendo a consciência um fenómeno tam genuíno e especial, talvez antes que nada devamos preguntar-nos se pode existir algum tipo de explicaçom inteligível sobre a sua natureza capaz de satirfazer plenamente o nosso interesse científico. O própio Nobel Francis Crick colocava essa mesma questom deste modo: podem os qualia ser explicados polo que conhecemos da ciência moderna? Persoalmente, eu duvido de que saibamos o que estamos buscando quando estudamos a natureza íntima da consciência. Creo, em realidade, que nom o sabemos.

Quando tentamos explicá-lo podemos dizer que falar da consciência é como falar da relaçom entre o cerebro e a mente e, nesse sentido, umha das metáforas mais utilizadas é a que afirma que do mesmo jeito que a temperatura nom é mais que a cinética ou velocidade de movemento das partículas que integram um corpo, a consciência deveria ser o mesmo que a actividade fisiológica cerebral que a fai possível, e punto. É dizer, o mesmo visto dende outra perspectiva. Mas nom resulta doado conformar-se com essa explicaçom, porque aínda que a temperatura que avalia um termómetro seja simplemente umha maneira macroscópica de observar o movemento das partículas, o cerebro, a diferença do termómetro, nom só avalia, senom que convirte o resultado da avaliaçom numha nova experiência moi especial que chamamos calor. Podemos dizer entom que a calor nom é outra cousa que o modo que tem o nosso cerebro de decatar-se do movemento das partículas dum corpo, mas seguimos sem explicar a especificidade da experiência consciente que fai possível essa particular percepçom. Qualquera outra metáfora poderia remitir-nos à própia consciência sem explicar-nos a sua natureza.

Hai entom umha soluçom possível para o problema da consicência? Eu penso que actualmente nom o hai [e seguramente seja certo, actualmente], e tentarei explicar por que mediante umha metáfora. Para preparar umha comida saborosa precisamos dumha boa receita, ajeitados ingredientes e conhecer a correcta sequência e temporalidade para cozinhá-los. Mas, acaso aportaria algo ao resultado final o conhecer como a combinaçom de ingredientes e o cozinhado originam o bom sabor do produto final? [possivelmente] Poderia esse conhecemento melhorar o resultado? [por que nom?] Aportaria ao cozinhado algumha vantage, propiedade ou utilidade práctica? Provavelmente nom [provavelmente SI, diria eu]. É dizer, em princípio, parece mais relevante e necessário conhecer os ingredientes e a mestura precisa que fam possível um sabor que determinar a natureza do própio sabor como fenómeno mental consciente. Pois do mesmo jeito coido que, aínda que puidéssemos conceber e mesmo conhecer algumha explicaçom convincente sobre como a fisiologia inconsciente se converte em psique consciente e em que consiste esta última, esse conhecemento nom serviria para nada mais que para satisfacer a nossa curiosidade científica, sem aportar nengumha vantage práctica.

E essa é para mim a clave dado que, ao longo da evoluçom, a selecçom natural promove unicamente cousas úteis [dacordo, mas o significado de "útil" pode tamém evoluir]. Desse modo, aínda que conhecer os mecanismos naturais que fam possível a consciência é algo que podemos alcançar cientificamente e que terá sem dúvida consequências prácticas na clínica o a educaçom, conhecer a natureza íntima da subjectividade, aparte de satisfazer, como dizemos, a nossa curiosidade científica, seria de pouca ou nula utilidade, e quizais essa é a razom pola que a selecçom natural pode nom ter promovido o desenvolvemento suficiente do cerebro humano que faga possível a compreensom da natureza da consciência.

A mente consciente foi promovida pola selecçom natural em resposta aos câmbios e desafios que se produzírom ao longo da evoluçom no entorno dos animais, como um médio para adaptar-se a eles. É dizer, para sobreviver os animais tivérom que desenvolver flexibilidade mental e condutual, o que proporciona a consciência. A nossa capazidade cerebral para entender a natureza da mente consciente evoluirá quando novas condições ambientais fagam verdadeiramente necessário este entendemento [efectivamente, aínda que estas condições podem nom ser tam só ambientais, ou seja externas, senom internas, derivadas da vontade do género humano], aínda que tamém é possível que entom surjam novas e difíceis questões que serám o preço dessa promoçom.
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