segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fontaneiro sem auga



Um texto de Sara Cuesta publicado originalmente aqui.

Francisco Dopico nunca soubo o que é ter auga corrente em casa. Exatamente os 68 anos que tem de vida. Os mesmos que leva residindo na corunhesa rua de Puerto Rico. «Coido que atualmente devo ser o único habitante de toda a cidade que não tem auga», afirma. A guinda a esta situação po-na a sua profissão: é fontaneiro. A sua casa está situada numa zona do bairro de Vionho na qual outras velhas construções como a sua estavam na mesma situação há uma década. No entanto, a dia de hoje, Francisco é o único que continua vivendo ali. «Hai vizinhos que vivem ao outro lado da rua que não tenhem sumidouro, mas polo menos eles podem-se banhar sem ter de ir à fonte», comenta. E é que Francisco tem que ir com cubos a buscar auga a um manancial que está próximo à sua casa, na qual vive de aluguer hai mais de três décadas.

Em certo sentido poderia-se dizer que o de viver sem auga corrente «é uma tradição familiar», chancea. E é que os seus pais viveram toda sua vida sem o líquido elemento, noutra vivenda da mesma rua Puerto Rico, onde se criaram el e as suas irmãs. Quando casou, hai 36 anos, Francisco mudou-se com a sua mulher a uma casa próxima. Ali vivírom toda a sua vida e «ali medrou o meu filho», ao que tinham que banhar «a base de caldeiros, aquecendo a auga por tandas», lembra Francisco algo nostálgico.

A pesar de viver em condições mais próprias do medievo que do século vinte e um, Francisco é um homem alegre que assume a sua situação com humor. «Sou o único que resiste, e aqui sigo. Que remédio. Se tivesse dinheiro para comprar-me outro apartamento não estaria aqui, mas não o tenho», comenta. «Eu não sei o que é ter uma casa com auga. É uma desgraça, mas a vida é assim», afirma com resignação. Isso sim, de tubagens e bilhas sabe muito. Mas já se sabe, «em casa do ferreiro coitelo de pau», comenta antes de lembrar com tristeza que a sua mulher, já falecida, «sempre sonhou com viver num apartamento com auga».

sábado, 21 de agosto de 2010

Public Enemy (Castrelos, Vigo, 5 de Agosto de 2010)




Yeeeaah, boooyyyee! A mais grande banda de hip hop da história visitou Vigo para descargar duas horas de música sem interrupções, sem mais "descansos" que os os reservados para as exibições individuais de DJ Lord aos pratos e de Flavor Flav à bateria. Toneladas de atitude, entrega e experiência que começaram já desde a saída, com os dous MC's plenamente motivados e um apropriado "Brothers gonna work it out". Seguírom com "911 is a joke", e já parecia que iam tocar inteiro o Fear of a black planet (1990)... mas aginha caírom os dous temazos da sua obra mestra It takes a nation of millions to hold us back (1988): "Bring the noise" e "Don't believe the hype".


Flavor Flav, o showman...

Estávamos na 2ª fila quando começou o festival de saltos. Mágoa que a cámara de fotos estivesse já sem bateria, porque não todos os dias pode um receber o impacto de Flavor Flav! Velaí um ghicho de 51 tacos que não vacila em guindar-se sobre o público uma e outra vez... e é que PE em escena são coerentes com a mensagem que transmitem nos discos: a sua ética é a de The Clash e, ao igual que eles, não só predicam unidade e revolução, senão que tentam levar à prática a premissa de que não deve haver distância entre público e artista. Todos somos parte do show.



... Chuck D, o punho em alto...

Um show que inclui todo o esperado e mais. No primeiro apartado incluiríamos as coreografias a cargo da peculiar S1W (Security of the First World), um corpo de guarda-costas/bailarins de estética paramilitar que nos obsequiárom com curiosos passos de baile. Ou o de sacar o radiocasette oitenteiro, ou o sempiterno relógio de Flavor Flav. No segundo apartado poderíamos meter o de que saíssem com as camisolas da seleção espanhola de futebol, mal vício no que caera também Patti Smith. Claro que, ao igual que a sua vizinha neoiorquina, os de PE também o compensárom com outros gestos; neste caso, o comentário de Chuck D "we know you are fighting for independence..." e de que, se não nos dão o que queremos, temos o direito a reclamá-lo (puro PE).


... e DJ Lord ao control

O espectáculo estava indo mui bem, agás por um "pequeno" detalhe: o som era terrível. Ainda sabendo quase de memória a maior parte das canções custava reconhecé-las ao começo, e a letra muitas vezes havia que intui-la. Em busca de uma melhora movemo-nos um pouco cara atrás, mas o som pouco melhorou. Uma mágoa, porque o que puido ser um concerto memorável ficou lastrado por algo tão estúpido como um problema técnico.


Com o loro, e o guarda da S1W ao fondo

Eles seguiam ao seu, felizmente, e os hits iam caindo um tras outro: um oportuno "By the time I get to Arizona", o emblemático "Fight the power" com o que pensei que finalizariam o concerto (mas ainda quedava muito mais), outro tralhazo como "Can't truss it", "She watch channel zero", "Give it up" (creo lembrar, mas agora nem estou seguro)...



Guitarra!

Mesmo houvo tempo, como dissemos, para escoitar um longo solo de bateria de Flavor Flav, ou um tema integramente com guitarra-baixo-bateria. Porque PE não é uma simple banda de hip hop; di um estilo e eles fam uso del: rock, metal, funk, soul (o da canção que se deixárom no tinteiro: a "He got game", toda a noite agardando por ela, mágoa)... e rematárom o concerto com as arengas de paz e amor de Flavor Flav mentres de fondo soava o reggae de "One Love", de Bob Marley & the Wailers.



O coletivo LicorKafe.

Figeram de teloneiros vários rapeiros locais: o colectivo Licor Kafé e outros. Algumas táboas vão tendo, mas em geral... pouco que rascar. Vale que os rapazes (que não são tão rapazes: El Puto Coke é da nossa quinta) lhe botam vontade, mas parece-me que a estas alturas da película a escena viguesa deveria dar para algo mais. Polo menos para chegar ao nível da de Ordes... ;-)


domingo, 15 de agosto de 2010

Mais alá de Arnela...

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... e da praia da ducha.

sábado, 24 de julho de 2010

Patti Smith (Castrelos, 18 de Julho)

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Cita em Vigo com uma responsável de parte da minha melhor educação musical, dende que com 12 anos o Rubén me gravara um casette com o "Horses" numa cara e uma seleção dos Pixies na outra. Já tivera oportunidade de ver a Patti Smith no Festimad 2004, ainda que um festival não era talvez o formato ideal. Era esta, já que logo, uma ocasião de luxo a baixo preço (10€) no parque de Castrelos.

A noite começou com "Redondo Beach", um clássico do "Horses"... fermosa e contida, para ir entrando em calor. Seguiu com "Space Monkey", algo mais de canha para ir subindo a temperatura. Foi a primeira de muitas canções de "Easter", o disco do '78 do que remataria por cair a sua primeira cara quase integramente. A primeira apoteose, falo por mim, chegou com "Free Money", canção que este ano cobrou um significado especial para nós ;-)

Mália os seus 35 anos de carreira, Patti Smith não tem uma discografia mui extensa, de aí que o seu repertório ao vivo esteja bastante estabelecido: hai uma série de canções que não devem faltar, e poucas ficam no tinteiro. Assim, de "Radio Ethiopia" tocaria "Ask the angels" e "Pissing in a river" (bem!)... ainda que não "Distant fingers", a minha favorita desse álbum e um dos poucos temas que botei em falta (o outro foi "Summer Cannibals").

"Beneath the Southern cross", "Dancing barefoot"... uma versão dos Rolling Stones sesenteiros, "Play with fire", e outra de Jim Carroll para lembrar este amigo seu, falecido o passado Setembro: a tremenda "People who died", um tema que me flipa e que não esperava em absoluto. Momento intenso para berrar mentres lembramos os seres queridos mortos e celebramos seguir vivos.
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Outro intre para lembrar chegou quando, tras desculpar-se por não conhecer a nossa língua ("eu não falo galego", sic) explicou o emocionados que se sentiam de tocar aqui no aniversário do levantamento fascista de 1936. Pediu-nos que lembrássemos os nossos antepassados mortos naquela guerra, e abofé que erguimos o punho mentres ela recitava os versos de "Ghost dance", "we shall live again". Grande Patti.

Algo mais prosaica foi a lembrança do triunfo da selecção espanhola no mundial de futebol (!), ao que fijo menção um par de vezes. Ninguém é perfeito e não lho vou ter em conta... ;-) Soárom também, como não, "People have the power" e a dos "Bicos de nai" (já sabedes, essa que sacara com o Bruce Springsteen). E nos obsequiou com uma poesia (improvisada?) sobre as suas andanças por Galiza, de Vigo a Compostela, comendo peixe, peixe e mais peixe, até que os espíritos dos peixes chegaram ao céu... ou algo assim.

Reservou para os bises um medley que começou com "Babelogue"-"Rock'n'roll nigger" - no que por fim presenciei como lhe dava passo ao Lenny Kaye para que cante a sua parte ("Lenny!")... pequenos momentos de deleite para um fã- prosseguiu com "Land", e rematou com essa canção que disque era originalmente dos Them, mas que ela fijo sua por sempre em 1975 com uma reinterpretação para a história... já sabedes a qual me refiro.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Louro

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Hai uns anos passamos por aqui e acordamos que haveria que voltar. Passou tempo de mais, mas finalmente cumprimos o desejo de acampar aqui e desfrutar deste sítio singular. Louro é a parróquia que pom fim polo norte à ria de Muros e Noia, e dá nome também a uma ponta, um monte, uma praia e uma lagoa. O conjunto é um dos recantos mais espectacularmente fermosos da nossa costa.
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A lagoa:
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Lindas cores para uma bandeira:
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Também visitamos Larinho ou Baronha, mas reservarei essas fotos para outro post. Não vaia ser moito para um só! ;-)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Vigo Transforma

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O Vigo Transforma pola tarde: lots of SO(u)L

Si que promete este verão de concertos no arrabaldo do sul! A primeira grande cita chegou com o Vigo Transforma da passada sexta feira, 9 de Julho (o festival continuava o dia seguinte, mas eu já não puidem acudir por ter uma comunhão em Paradela e um aniversário em Sada; afortunadamente o dia bom era sem dúvida o primeiro, e este não mo perdim). O lugar escolhido foi o peirao de trasatlânticos, onde se colocárom 2 escenários frente a frente. Ao não solapar os concertos, as demoras habituais nestes casos fôrom minimizadas, e de feito a puntualidade foi a nota predominante. Certo que outros aspectos não estivérom tão bem organizados: ao entrar formárom-se filas intermináveis para comprar os tickets de bebida, filas que segundo avançava o tempo se fôrom dissipando... para se trasladar aos mijadeiros, claramente insuficientes.
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Mas chega já de detalhes organizativos, imos falar da música que é o que importa. Abriam às 19:00 Triángulo de Amor Bizarro; como era previsível dado o cedo da hora, apenas puidemos escuitar deles algo de ruído mentres nos achegávamos ao recinto. Para quando entramos já estava tocando outro grupo, ao que me custou reconhecer como o de Devendra Banhart. Eu, que não escoitei ainda os seus últimos discos, contava com ver um hippie de barba e melena imponentes, ataviado com sandálias e se cadra uma túnica, tocando hinos cósmicos com uma guitarra acústica... e atopei-me em lugar disso com uma rock star capitaneando um combo de glam-pop. Dificilmente se podia reconhecer neste Devendra ao dos inícios, mais alá de alguma canção onde tirava um pouquinho cara o folk, ou quando alguma inflexão na voz lembrava o cantautor que foi. Tenho que dizer que a surpresa não foi para nada negativa (temas discotequeiros incluídos). Valente evolução a deste tipo.

Rápido câmbio de escenário para ver a Jeff Tweedy. Tocou só; ou melhor dito, acompanhado por média dúzia de guitarras, um cámara pesado e uma chirriante bandeira espanhola que não sei que caralho pintava ali. Se cadra é a forma que tem este home de fazer-se querer, uma forma tão sutil como se regalasse dinheiro (mas, polo que a mim respecta, muito menos efectiva). Enfim, apesar desse detalhe hortera-patriótico e da nula interacção com o público, o concerto foi de nota. Adicou-se a repassar os grandes temas de Wilco, e com tal repertório não podia falhar. A gente desfrutou de canções como "Hummingbird", eu agradecim que tocara "A shot in the arm" do Summer Teeth... enfim, nada mal para ser o mau de Uncle Tupelo (esses si que eram uma boa banda :-P )
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A seguir tocavam uns que tinha muita gana de ver: The XX, uma das sensações da tempada indie 2009, na que entregaram um disco mui disfrutável. Novinhos e pálidos, não pareciam moi cómodos, e o seu revivalismo dos Young Marble Giants gerou divisão de opiniões. Uma maioria oscilava entre o "psé!" e o "buf!"; mas eu, a dizer verdade, ponho-lhes um aprovado (sem passar-se): reproduzírom aceitavelmente o seu disco, e, a falta de algo novo ou especial, transmitírom a fragilidade que se desprende das suas gravações. Cousa curiosa fôrom Fanfarlo, aos que nunca escoitara, e dos que só sabia que "soam parecido a Arcade Fire ou Clap Your Hands Say Yeah". Abofé! Não é que se pareçam, é que mesmo aparentam ser uma banda de homenagem aos canadianos. Um dos primeiros temas era um calco de "Lies" mais alá de qualquer dúvida razoável. E o resto do concerto, polo estilo... não é que soassem mal, ao contrário, mas não sabíamos mui bem como reagir ante tal "exercício de estilo". Veu o turno despois de Love of Lesbian, banda espanhola que conta com um exército de seguidores sem que eu me dea explicado o porque. Pareceu-me dos concertos mais frouxos da noite; igual é que não lhes dou pilhado o ponto.


E já quase para rematar vinham Os Mutantes, outro dos momentos mais agardados ainda que não soubesse moi bem que esperar deles. Seguramente não moito, a verdade... e ao começo parecérom confirmar essas modestas expectativas, pois o som deixava bastante que desejar. Mas a cousa foi melhorando, e para quando tocárom temazos como "A minha menina" ou "Baby" já estávamos desfrutando sem paliativos. A cousa não decaeu em nengum momento; ao contrário, parecérom crescer-se e oferecérom um autêntico recital técnico, amosando que a sua música continua bem viva. No bis, um apoteósico "Bat Macumba" que nos serviu de inmelhorável feche para o festival (como o dia seguinte havia que madrugar decidimos passar dos para mim desconhecidos Mike Snow).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Rio Gesta (Serra do Suido)



Havia bem tempo que tinha vontade de visitar a bisbarra do Suído, para mim uma grande (ainda que próxima) desconhecida. Finalmente nos achegamos por ali uma fim de semana de muita calor, ideal para se mergulhar nalguma das poças que abundam nos seus rios. Sem conhecer a priori nada da zona, e sem procurar recomendações de ninguém, uma rápida busca no google nos levou à aldeia de Linhares, desde onde baixamos pola beira do rio Gesta. Um percorrido breve mas mui bonito, durante o qual incrivelmente não nos cruzamos com ninguém. Assim dá gosto!



A ponte de Linhares




Vista desde em baixo da ponte




Augas abaixo da minicentral (uma cousa fea chantada numa paragem impressionante)


Com a fervença aló em baixo


quinta-feira, 24 de junho de 2010

Solpor no solstício



Lembrança da passada noite, na praia dos Olmos (Vigo).

sábado, 12 de junho de 2010

Manuel Rivas: As mulheres que levavam o mundo na cabeça

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De quando em vez O'Rivas entrega algum texto com o que um fica com a boca aberta ante tamanha maravilha. Sem dúvida é um dos grandes. E felizmente é dos nossos.

Entre os retratos tópicos, un que aínda abonda é o da persoa galega como un ser atado á terra dun xeito fanático. Dise que as raíces van mesmo por debaixo do mar e que nos teñen prisioneiros por esa potente droga que é a saudade e o derivado opiáceo que é a morriña. En realidade, o que é o galego é un fanático dos camiños. O galego quer terra, si, mais non para ficar nela senón para ter de onde saír. Un punto de partida de seu. É certo que tamén semella un maníaco dos valados. Fanse peches monumentais, ás veces máis custosos que a propia vivenda. Pero iso faino o galego non para acantonarse senón para que luzan máis o portal e o camiño. Dise que os antigos kallaikoi ou callaicus eran chamados así por seren "os que vivían entre as pedras". Se me pediran para unha enciclopedia universal unha definición da humanidade galega eu diría en primeira acepción: "Son alegres construtores de camiños; á primeira oportunidade, abren un camiño". Hai quen observa un territorio, sobre todo se é da beiramar, e a súa mente está a calcular cantas urbanizacións pode chantar alí. Mais o galego fetén o que mira é o andar caligráfico da terra, ese tecido reticular de carreiros, corredoiras, camiños e estradas, e nesa ollada mestúrase o cativo da terra, o espírito emigrante e a ollada vocacional de ministro de Fomento. Mais o que procura á fin a ollada é ver o camiño de quita e pon, case sempre invisíbel, ese que se anda cos pés e cos soños, prendendo nas silveiras. O camiño da vida. E cadaquén ten o seu.

Castro de Elviña era un centro histórico, un primeiro círculo, na topografía dos camiños. Había alí unha intelixencia dos puntos cardinais. Confluían camiños vellos, como o dos Montañeses, que antano fora Real, e corredoiras fondas, como a da Estadea ou do Trasno, que podían comunicar o lugar, a pé ou en montura, con todo Antigo Reino. O traballo e a burocracia empuxaban o andar da xente para A Coruña. As feiras, as festas, as romaxes, e os fíos dos amores moito tiraban para as Mariñas Douradas e Bergantiños. Ademais das rotas principais, todo o territorio, monte e val, era unha infinda trama de carreiros que semellaban escritos pola terra en verso libre, pero que sempre levaban a algures. A leiras, prados, penedos, fontes, ríos de lavar... Ou ao niño da galiña choca. Ou ao muíño de Perfecto, aínda hoxe en activo, e que debe ser o único muíño coruñés supervivente á globalización.

Mais entre os meus preferidos, o camiño que viña do val de Mesoiro, o camiño da Cavaxe, e que tiña a curvatura xusto no monte do Castro, e que abeiraba o primeiro anel da fortificación castrexa. Cada camiño ten a súa imaxinación. Os camiños morren cando deixan de contar historias. Ese camiño de que falo estaba cegado pola vexetación grande parte do ano. Caera en desuso. Ademais, nós viviamos afastados de alí, na outra banda. E non obstante, o meu ollar prendeu nel. Dende a fiestra, cada vez que miraba para aquel camiño cuberto de maleza pasaba algo extraordinario. Eu tíñalle algo de medo a aquel camiño. Lembro un día de inverno, de chuvia inclemente, na curva apareceu a comitiva dun enterro. Ese filme do camiño non era de todo estraña. Mesoiro e Feáns pertencían á parroquia de San Vicenzo de Elviña e traían a enterrar os seus mortos, moitas veces a pé, coa caixa nos ombreiros durante quilómetros. Mais ese día o camiño cego abriuse para amosar algo estarrecedor. Movéndose nunha orde pesarosa e apiñada, alzados os paraugas negros como escudos alcatranados contra o ceo de chumbo, a comitiva fúnebre avanzaba. E o que levaban era un cadaleito pequeno e branco. Nunca esquecerei aquela primeira do máis duro desamparo. Nin tampouco, malia todo, o dínamo piadoso que facía avanzar a comitiva. Cando morría unha crianza, era un anxo quen morría. Mais a min daquel día, non sei o porqué, quedoume a impresión de que era Deus o que morrera. Que fora minguando. E que ficara nun cadaleito branco azulado baixo o trebón.


O camiño da Cavaxe, por sorte, no seu abrir e pecharse, non era un túnel mórbido e produtor de medo. Lembro moitas outras imaxes felices. De cando en vez por alí aparecían xinetes de acabalo, que podiamos identificar cos nosos heroes do Oeste, estabelecendo unha conexión directa entre o televisor da taberna de Leonor e aquel camiño do Castro. Tamén saíu o xabaril. E o porco teixo, que comeron os da peña Os que somos en célebre enchenta á que sobreviviron todos, mesmo o espírito aromático do teixo. E un ciclista coa bicicleta ao ombro. Sempre admirei moito á xente que levaba a bicicleta e non ao revés. En Castro, Farruco era un deses ciclistas que nunca vin subir á bicicleta. Para min era un grado máximo de civilización. Ao que íamos. No canto das imaxes máis pracenteiras que me ofreceu o camiño da Cavaxe nada comparábel ao daquel martes de Entroido en que polo túnel vexetal se abriu paso un equipo de fútbol feminino, que viña da parte de Arteixo. Viñan con camiseta e pantalón curto. E á fronte, como unha figura pop, como unha vestal, como unha revolución óptica naquel tempo de loito téxtil, alí apareceu a Loura de Vilarrodris. Todo o mundo pensou que chegaba a Bardot. Pero sería un fracaso. Non resistiría un minuto no campo. A Loura de Vilarrodris non só era máis guapa. Sabía darlle ao balón con lume de biqueira e facerlle fronte con garbo a aquela multitude afervoada, chegada de toda a comarca, e que emitía arias di bravura e barrocas onomatopeas encadeadas cada vez que as mozas de Elviña, Castro e Vilarrodris tocaban a esfera do mundo.


Ese día do martes do Entroido sempre había quen trancaba os regatos para que secaran os ríos e as lavandeiras non tiveran que ir traballar e foran xogar ou ver polo menos aqueles partidos que foron pioneiros no fútbol feminino. Cumpríase o mandato do Entroido: poñer o mundo revés!
O que pasaba durante o resto do ano era xustamente o contrario. As lavandeiras de Castro de Elviña levaban a esfera enriba da cabeza. Lavaban para as familias de clase alta coruñesa, ou para clínicas, ou para fondas e restaurantes. As máis das veces a pé, ou con algún burriño, ían e viñan con enormes lotes pousados nas coroas ou mulidos. Algunhas tiñan as mans comidas pola sosa. A súa columna vertebral, polos pesos soportados, tiña o xeito da pirámide invertida. Era un traballo anfibio, sempre en contacto coa auga, coa pedra húmida, coa friaxe metida no corpo. Falando das visións dos camiños, eu ver vin como as lavandeiras de Castro traían o mundo na cabeza. E o que pasaba o martes de Carnaval é que esas e outras traballadoras dábanlle unhas patadas ao balón do macho planetario. E os risos ceibes daquelas mulleres resoan na lembranza como un dos poucos días en que vin triunfar a humanidade.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Shellac + Mission of Burma


(Sala Mondo, Vigo, 26 de maio de 2010)

Burma!

Teria eu 15 anos quando comprei por correio os “Fan Club Singles” de REM: dous preciosos singles em vinilo transparente e coloreado com as versões que a minha banda predileta adoitava fazer como regalo de nadal ao seu clube de fãs. Daquela o de baixar música da internet era ciência ficção, assim que a única forma de escoitar essas canções era tendo o disco em si, o que lhe conferia a estes artefatos para coleccionistas um caráter de jóia do que agora, evidentemente, carecem. Um dos temas incluídos nessas gravações era “Academy Fight Song”, hit perfeito e pegadiço onde os haja, que me enganchou ao instante. Infelizmente, estava acreditado ao seu autor, um tal Conley do que não escoitara falar (hoje googleas isso e tes toda a informação que desejes em seguida, mas daquela... enfim, não sigo com as batalhinhas). Tardei vários anos em averiguar que a banda de Conley era Mission of Burma, um combo de culto na escena post-punk de Massachusetts que tivera uma breve existência circa 1980. Com o tempo baixei alguns dos seus MP3, e o ano passado comprei numa tenda de Boston um CD que recopilava o seu primeiro 7” (aquel “Academy Fight Song”) e o seu EP “Signals, calls and marches” (no que se atopa “That’s when I reach for my revolver”, outro hino de raiva, ruído e melodia tão característico deles). O legado original dos MoB reduz-se a essas duas gravações e a outra mais, o LP “Vs” de 1982 que supostamente inspirou o disco homônimo de Pearl Jam. Mas hai mais, de feito moito mais, porque 20 anos despois do “Vs” se juntárom de novo... e o resultado é que na última década temos 3 discos novos de MoB que, por certo, não estão nada mal.


Shellac!!!
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Até aqui o meu repasso persoal a Mission of Burma. A respeito de Shellac, a verdade, tenho menos que dizer. Evidentemente considero a Steve Albini um dos gênios do rock do último quarto de século, mas principalmente na sua faceta de produtor. Um ghicho que gravou “Surfer Rosa”, "Rid of me", "In Utero", “Seamonsters”, "Yanqui UXO", "Gipsy punks underdog world strike" ou "Ys", por citar só uns poucos dos miles de discos nos que meteu mão, não merece outro apelativo. Agora bem, como músico já cambia o conto. Nem com Big Black nem com Shellac me acabava de convencer, estava bem, correto, mas pouco mais.

É por isso que fum à sala Mondo principalmente por Mission of Burma, e Shellac era um pouco a propina. Mas sairia com uma opinião diametralmente oposta...


Abrírom os Mission of Burma, e aginha nos decatamos de que algo não ia bem. O som era horroroso, a voz havia que imaginá-la e os instrumentos produziam apenas ruído. Pouco foi melhorando durante o concerto. Mas o que é pior, no repertório escatimárom os clássicos que os figeram grandes: da primeira época soou “This is not a photograph”, mas nem o “Academy” nem o “Revolver”. E isso não se fai, que carai. Vale que o “Obliterati” ou o “OnOffOn” são discos que estão bem, mas se vimos ver umas velhas glórias queremos um pouco da velha glória! E por riba, sem bises... enfim, uma decepção, e eu já estava pensando que estaria melhor na casa. Mas nessas saírom Shellac...


Que panda de animais. Que brutalidade. Que diferença entre escoitá-los em disco e ao vivo, nada a ver. O Steve Albini é a personificação do ROCK, nem mais nem menos, e baixo a aparência mais improvável (semelha mais um dos piores frikis da Automática que me tenha atopado na carreira). Mas o tipo não só VIVE e RESPIRA rock puro-e-duro, senão que consegue transmiti-lo, o cabrão. Normalmente som escéptico quando leio este tipo de comentários, mas tenho que admitir que neste caso é assim. Shellac comérom-se a Mission of Burma nos primeiros 5 segundos de atuação, e despois dedicárom-se a dar uma lição magistral do que é o rock. Intensidade, ritmo, potência, guitarra, baixo, bateria, voz. This isn’t some kind of metaphor... goddamn, this is real! Temas que parecem simplemente OK ao escoitá-los na casa convertem-se em brigadas de demolição quando estás assistindo à sua interpretação em direto. Um exemplo, o “Prayer to god” que abre “1000 hurts”, e esses berros de “fucking kill him”. Enfim, como nada do que poida dizer transmitirá o que são capazes de fazer estes elementos sobre um escenário, quase melhor calo e deixo uma recomendação: sempre que poidades, ide-os ver.