segunda-feira, 18 de maio de 2009

Animal Collective (House of Blues, 14/05)

Um lenço com o patrom psiquedélico da portada do Merriweather Post Pavillion (2009) pendura ao fondo. Os teclados e maquinilhos vários estão cubertos por telas brancas sobre as que se projectarão formas e cores. Um gigantesco globo branco colocado com a mesma finalidade levita sobre o escenário. Todo preparado para uma das mais prometedoras experiências sensoriais que podemos pedir à música actual: um concerto de Animal Collective.

De esquerda a direita, colocam-se Geologist, Avey Tare e Panda Bear (Deakin segue de sabático), e começam a fuchicar nos cacharros. Já com o segundo tema, “Summer Clothes”, chega a primeira apoteose. O ritmo irresistível desta canção, a minha favorita do último disco, consegue pôr a toda a sala a bailar. E é que Animal Collective, em certa medida, estão a fazer música de baile, ou polo menos um dance pop genuinamente do s. XXI. E ao público encanta-lhe... é curioso como uma música tão original, persoal e intransferível pode conectar a este nível com tanta gente. Porque Animal Collective são verdadeiramente únicos, e ainda que quando os escoito não podo deixar de pensar “mas que doado... como ninguém provara a fazer isto antes?”, quando para a música penso “mmm... mas como era que faziam eles?”. E o que é que fam? Psiquedélia? Alt-folk? Electrónica? Post pop? Dança tribal? Nada disso, por suposto. Então... que? Melhor não pensá-lo muito e limitar-se a escoitar.

Outro momento cume da noite veu com “Peacebone”, o single de Strawberry Jam (2007). O grupo soubo espaciar moi bem alguns longos delírios instrumentais entre os temas de feitura mais pop, com o que o concerto fluiu sem costuras entre os estribilhos com resonâncias Beach Boys e os arrebatos de puro e gozoso ruído. A derradeira catarse tarareável chegou com “Brotherspost”, já nos (generosos) bises. Grande concerto, si senhor; quem queira saber mais ou menos como foi, pode escoitar aqui em NPR o podcast do show que dérom uns dias antes em Wahington DC. Eu ainda não o fixem, mas acho que foi bastante parecido.

P.S. 1. O teloneiro foi Grouper, um rolho moi, moi atmosférico, uma espécie de My Bloody Valentine em tranqui, sem ruido nem melodias. Si, já sei... é como dizer “nada”. Talvez por isso os únicos aplausos que escoitou foi quando se pirou. Não lamento ter chegado tarde à sua parte.

P.S. 2. O concerto foi na House Of Blues, um sítio bem curioso. Realmente são uma franquícia, tenhem várias salas similares por toda a geografia USA. Vão de autênticos (seica gardam uma caixa com lama do Mississippi baixo o escenário), mas para o meu gusto vai-se-lhes a pinça com caralhadas. Tenhem espaços para cear (bem caro, por suposto), e mesmo... para rezar! Mas logo não deixam entrar cámaras de fotos, nazis do caralho (Robert Johnson havia-os pôr de verão, se se erguesse da tumba). Eu de pardilho fixem caso à norma e não a levei, mas já vim que não é difícil meter uma, assi que para a próxima vez (que será em junho para TV On The Radio) haverá fotos próprias, se todo vai bem.


sábado, 16 de maio de 2009

Ninguém sabe como pode rematar

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Artigo escrito por María Cedrón, publicado o 13 de janeiro do 2009. Foto de Óscar París.

«Nadie sabe dónde puede acabar. Mira las Torres Gemelas... ¡Qué altas eran! Y mira cómo cayeron. Bastaron solo unos segundos... Escupí para arriba y me cayó encima». Ramón (nome falso porque não quer que os seus filhos se enterem de que vive na rua) fala com conhecimento. Hai quatro decênios, quando colheu por primeira vez o volante de um camião, nunca teria pensado que acabaria vivendo, com 66 anos, baixo a rampa de subida para o portal dum edifício do corunhês bairro de Elviña.

Aí se instalou hai aproximadamente dous meses este burgalês junto com a sua companheira, uma corunhesa de 48 anos com a qual convive hai mais de cinco. Na rua levam já três anos. Mas o céu é o único teito que podem pagar com uma única pensão de aposentadoria, a dum camioneiro retirado. «No te voy a decir cuánto cobro, pero es pequeña, muy pequeña. No llega para dos, pero no voy a pedir. Nunca pensé que pudiéramos acabar aquí», comenta. A sua companheira não recebe nada, nem a Renda de Integração Social da Galícia (Risga), uma ajuda que lhe denegárom duas vezes. «Con esa ayuda podríamos pagar una habitación y luego con lo que gano tendríamos para comer y los pequeños vicios», explica.

Ramón repassa a sua vida, enquanto descansa sentado sobre uma colcha que cobre uns cartões que o isolam do chão. Como apoio utiliza uma maleta negra, com rodas, que atopou num contêiner. Lembra os seus anos na estrada. «Conozco toda Europa, y de España y Galicia, rincón por rincón».

Antes de viver em Elviña instalaram-se numa rua cega que hai junto a estação do trem. «Teníamos todo muy curioso allí, incluso teníamos unos plásticos que cortaban el aire, pero Dolores [também nome fictício] estuvo enferma, en el hospital, y al volver alguien había quemado aquel rincón. Nos quedamos con lo puesto. Por eso tuvimos que mudarnos aquí», comenta.

Vida cotidiana

O pequeno espaço que ocupárom está mui limpo. «No queremos molestar a nadie», dim. Numa garrafa tenhem o sabão para lavar a louça, uma pequena lata fai as vezes de cinzeiro e noutra esquina gardam lixívia para desinfetar. Como vassoira utilizam uma ponla. Para lavar-se utilizam o serviço do albergue ou, às vezes, os deixam assear-se numa gasolineira que hai perto. Num lateral do seu pequeno lar, perfeitamente dobradas, gardam quatro mantas. São o único escudo que tenhem estes dias contra o frio. «A ella -pola sua mulher- las bajas temperaturas le están afectando bastante, aunque los vecinos se preocupan mucho y nos preguntan: ¿queréis alguna más? Incluso hay alguno que pasa por la mañana y nos da algo para que vayamos a tomar un café caliente. En Navidad nos trajeron de todo», comentam.

Agora agardam ajuda. Onte, explicam, um jovem da cruz Vermelha foi a vê-los. «Está viendo cómo tramitar la Risga y buscando un lugar en el que podamos vivir». É a sua esperança.

sábado, 9 de maio de 2009

Akron/Family, 5 de maio de 2009



O último disco de Akron/Family, "Set 'em wild, set 'em free", saiu à venda hai tão só 4 dias. Casualidades da vida, nessa mesma data vinham a Cambridge para tocar no Middle East, local do que se falou nestas páginas hai bem pouco (ainda que neste caso foi no escenário Downstairs, mais grande que o Upstairs da vez anterior). 


Graças ao pirateo internauta puidera escoitar o disco uns dias antes da sua publicação oficial, e a primeira impressão fora mui favorável. Até agora só conhecia deles o anterior "Love is simple" (2007), um bom disco que me recomendara especialmente Alberto, e este não me parece inferior. Seguem a ser um grupo especial, uma espécie de Incredible String Band do século XXI, devalando entre o pastorismo neohippie, a experimentação friki duns Animal Collective e alguns arrebatos de intensidade talvez devedores do post-rock. E, mais importante, seguem a fazer algumas fermosas canções, como por exemplo a quase country "Set 'em free" (Set 'em wild, set 'em wild, set 'em free...), a séria candidata a hino massivo -- num mundo melhor, claro -- "They will appear" (woh-oh-oh-ohhh!) ou a balada folk "The alps and their orange evergreen". Em suma, um grande disco cargado de boas razões para i-los ver ao vivo.

Especialmente porque, em opinião generalizada, é em direto onde Akron/Family oferecem o melhor de si mesmos. Não é uma dessas bandas que simplemente tocam uma seleção das suas canções, senão que se esforçam em criar um show com introdução, desenvolvimento, desenlace e coda. E fazendo um pouco o tolo polo meio... vamos, como deve ser. A actuação começa com o escenário baleiro e uma cinta que reproduze o som de uma fogueira de campamento, e em consonância saem os três membros da banda, cintas brancas na cabeça, para cantar bem baixinho com o único acompanhamento da guitarra. A partir de aí vai subindo a intensidade, com um repertório centrado sobre todo nos dous últimos discos (mira que bem, os que conheço). É-lhes doado obter a complicidade do público, já predisposto a corear "Love, love, love" e outras peças emblemáticas. Por vezes diria que lhes perde a tendência a alongar de mais as partes instrumentais, mas também é certo que não estava eu mui de humor para essas cousas. Já cara o final, semelham voltar-se tolos com a frenética "MBF" (mas quando a voltei escoitar na casa descubrim que todos os berros que soltárom eram exactamente iguais aos gravados no disco). E como despedida, outra vez a juntar as cabeças e a cantar como bós Boy Scouts.

A sério, uns Grandes da Americana. Nº 1 da semana em Arbolícia.


P.S. Antes dos Akron/Family tivem que papar 3 teloneiros, que bem me podia ter aforrado. Fôrom We are the arm (horteras sem graça, uns rapazes que querem voltar aos '80 que nunca vivérom; sem o talento da Fundación Tony Manero, ponho por caso), Faces on film (algo mais salváveis, estes polo menos aspiram a ser Band of Horses) e Brad Barr (um tio só com a sua guitarra, tocando blues, folk e o que caera, que se foi sorprendido de levar tantos aplausos -eu também).